Flores do mal
Sexo, desejo, erotismo e o impossível
Inês Monguilhott me enviou seu livro Olhos do cão, editado em 2025.
Em conversa, ela diz sobre o livro “cada conto tem um quê de amargor, de deixar um mal-estar”... e, ela continua: os contos traçam um roteiro, são uma história costurada, formam um todo.
O livro é lindíssimo, a capa muito criativa e linda, a cor vermelha em destaque é vibrante, o formato é fora do padrão. Nos agradecimentos, vejo o nome de Áurea Rampazzo , a excelente professora de criação literária, não sei se Inês fez cursos com ela, mas certamente está em boa companhia, e sua paixão pela escrita se revela pelo texto de orelha:
“talvez seja esta a função da escrita: vivificar uma ambiguidade natural amortecida. O que há além de nós? Não sabemos. O que somos? Menos ainda. ... Sei apenas que cada um sente à sua maneira e sem sentir, não há o que contar.”
Viro as páginas.
O livro abre com um pacto...
Uma menina vê a morte pela primeira vez. “Meu primeiro morto”. Ali, ela se pergunta se vale a pena morrer com os olhos abertos. E qual seria o pacto que ela faz? Talvez não seja essa a pergunta, mas sim: qual seria o pacto que eu faço com a morte para viver?
E nasce o desejo como força antagônica a essa morte macroscópica e também à nossa morte microscópica de cada dia.
O desejo está explícito na vida sexual da protagonista (e foco narrativo), que não tem nome, mas parece ter traços específicos: uma mulher de meia-idade, classe média ou média-alta, branca, em meio a encontros com homens.
O desejo está implícito nos pensamentos e comentários, e naquele sentimento que ronda e não se mostra, e nos morde um pouco por dentro…
Cada conto é um desses encontros. Em que há a intimidade com o corpo, jogos mentais, provocações e sexo. Por que sexo? : Sexo é estar no presente, é retornar ao presente. É estar em um lugar tão desprovido de classificações, como é o da morte: no momento do sexo, não há classe social, nem idade, “animais iguais a si”. E, naquele breve momento, há a nudez de toda expectativa, de todo peso do viver – o que retorna tão logo o ato se quebre ou termine.
A mulher nunca parece tímida. Ela é sincera, curiosa, decidida, impulsiva, forte. Tem uma “determinação suicida”. Se enfurece quando o homem atrapalha seu desejo, ela defende seu desejo. E ela também sabe se defender. Ela pode parecer cruel em alguns momentos, mas não é... Ela brutalmente honesta e sincera, e também tem seus pontos suaves: “Ela tem seus cinismos, mas nunca deixou de ser sentimental”.
“O que a põe em igualdade com o homem é seu gozo” – a mulher só está em pé de igualdade quando defende seu desejo, e quando tem espaço para seu prazer.
E o desejo é maior que qualquer mistério: “Dane-se qualquer mistério, nenhum é maior que o desejo” – Onde está seu desejo? Você alimenta seu desejo?
Encontros fadados a não dar certo... há sempre algo que atrapalhe... a solução para encontrar o caminho do prazer é o casual, é o fortuito, é não se perder de seu desejo... “Talvez quisesse o que sabia impossível”.
Há uma história que quer ser de amor, a “Stabat mater”. O título é uma alusão à Maria que, mesmo em seu maior sofrimento, ficou em pé perto de Cristo. A história que poderia ser de amor mostra como ser ainda forte e se manter inteira mesmo em face da dor. “A mesma crueldade” ... e me lembro da música de Barão Vermelho, “Flores do mal” :
“A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva
Faz do amor uma história triste
O bem que você me fez nunca foi real
Da semente mais rica, nasceram flores do mal”
E sinto que este livro de Inês é como uma Flor do mal.
Lembro depois de Baudelaire, e suas “Flores do mal”, um livro que também convida o leitor a um passeio entre os poemas que formam o roteiro do caminhar do protagonista. Um flaneur solitário, tendo por dentro o sentimento daquele tédio imerso em melancolia e tristeza (spleen).
Flores do mal, essa expressão, pressupõe que haja, mesmo em meio ao caos e ao que é desventurado, a beleza. Que há beleza em meio a isso tudo.
E o que eu vejo de beleza nisso tudo? : A força da busca do prazer. O erótico que se é viver. A vontade de viver o presente, de se estar no presente.
E me lembro de Audre Lorde sobre o poder do desejo, apresentado a mim pela natália pompeu no seu artigo que tem como um dos temas o “O Erótico Como Antídoto Pra Morte” ) e uma das mais belas (e despertantes) citações que já li:
O erótico é mais sobre presença do que qualquer outra coisa. É a atenção plena ao que me atravessa. E o espaço entre o silêncio e o som, onde mora a verdade do que eu sei e do que eu sou.
Viver com o erótico aceso é viver com o coração acordado, permitir que cada gesto tenha mais gosto. Que o dia não me passe despercebido. Que eu não me perca mais de mim numa terça-feira qualquer.
“Viver com o coração acordado” – amei isso.
Você viu isso, Inês? O poder do desejo.
O meu conto favorito foi “Encontro marcado”, pois fala sobre o fortuito, o que acontece no meio de um planejamento, o inusitado que simplesmente acontece : “Talvez, apaixonado, não perceba o quanto o ato é arriscado e revolucionário: leva seu afeto a alguém”. – E isto me acende o coração: a força que a vida tem nos encontros fortuitos, a magia que há ali, ali há algo que me desperta. Amo esse tema. E esse tema me renova os olhos...
Vejo os contos como ilhas, e a protagonista nadando de ilha a ilha, buscando por algo? – “e essa busca agora era parte integrante de sua vida, o maior motor para o salto entre um dia e outro”.
“Os caminhos do afeto são insanos”... realmente são. E parecem se tornar mais e mais invisíveis quanto maior a distância daquele ponto inicial, em que sentimos a paixão juvenil, pela primeira vez.
Não sei...
A busca que nos move talvez seja sempre por aquilo que é impossível.
É o pacto. O de estar sempre de olhos abertos e buscar o impossível.
Eu também, amiga Inês, tenho, às vezes, olhos descoloridos, vendo a vida em preto e branco. Mas, às vezes, em gloriosos dias, tenho aceso algo por dentro. Talvez seja a busca.
Amei seu livro, amiga Inês. Percorri, lendo no ritmo que o caos daqui de minha vida permitiu, o caminho de um dia a outro, de um desejo a outro, e senti, como você me precaveu, um certo dessabor... mas esse sentimento me mostrou o quanto eu quero, o quanto eu quero que as coisas deem certo, não, não é certo “quero”... é desejo. Eu desejo também esse impossível, amiga.
Desejo o impossível com a força de meu mais glorioso dia de coração aceso.
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Terminei de ler seu livro. Aliás, não li, assisti. Ele é um filme.
E vai se transformando à medida que o acompanhamos. Começa lento, realista, meticulosamente descritivo. Dá para ver os cenários. Quando eu já estava certa de que aquele era o seu formato, me vi, de repente, dentro de uma farsa: a cidadezinha como cenário de peça, armada para seus atores/personagens. O realismo vai ao limite.
E mal me adaptei, um realismo fantástico começa a invadir tudo, fazendo água no que eu julgava definitivo. Não acontece de uma vez. Vai entrando aos poucos, até que o chão realista vacile. Isso é uma tremenda ousadia para quem escreve: mudar o pacto com o leitor sem desmontar um livro.
Gostei de encontrar no seu livro algo que eu mesma não consigo ter quando escrevo: uma visão positiva da humanidade. O livro se conclui num caleidoscópio mágico, que se assenta com uma suavidade espiralada. Muitas perguntas ficam sem resposta, mas não como falha: como partículas douradas repousando. São esperança.
Não é um livro que se esqueça facilmente. O livro não responde diretamente às perguntas que cria, e isso opera de forma inteligente e criativa: fica reverberando. É uma estratégia arriscada e, no seu caso, profundamente eficiente.
Fiquei muito comovida. Nem sei o que dizer…