Satoshi Kon
a magia de entender com o coração
Satoshi Kon foi uma pessoa difícil. Isso é o que seus colegas de trabalho diziam logo antes de reconhecerem que ele também era um gênio.
Se você gosta de animes e mangás, provavelmente conhece o trabalho dele. O mais famoso foi Perfect Blue. Eu assisti a todos, e também li seus mangás.
Não sei por que (ou quando, ou como) exatamente começou minha fascinação pelo trabalho de Satoshi Kon, mas é inegável que haja aí um quê de mistério, digo, sobre a misteriosa aura que há nas obras dele.
Ele costumava brincar em suas entrevistas com frases enigmáticas, como “o você que está em você não é o você que você acha que está em você”… conceito que bem resume as obras dele: elas têm tantas camadas que se adequam àquilo que você está preparado para ver e compreender no momento… mas, mesmo sem entender tudo, algo fica ecoando, até você ver que há mais um degrau acima do que você está, e daí você consegue dar mais um passo, e subir mais um degrau.
As obras não são óbvias, ele não facilita para o leitor ou espectador —mas não de um jeito pomposo que nos faz reclamar da arrogância do autor… não. É desafiador, exige a nossa atenção como um suspense policial, um daquele tipo que você quer descobrir quem é o assassino, você realmente segue as pistas, e pula de uma conclusão a outra, sempre mais e mais interessado em encontrar o desfecho. — E, geralmente, o desfecho é uma ideia, ou um sentimento, mais do que um fato concreto.
O roteiro é sempre impecável, e as histórias dizem tanto em tão poucas palavras ou cenas que chega a doer. É muito perfeito. E é sobre isso que seus colegas pareciam reclamar sobre ele, sobre o perfeccionismo.
Ele costumava ter a ideia completa em sua mente e tentava trazê-la à produção o mais fiel possível. Mas não parecia conseguir colocar o roteiro no papel, o que causou o cancelamento da produção da última obra em que estava trabalhando, já que ninguém sabia qual rumo a história tomaria.
Imagino o que seja ter o completo universo de uma história em sua mente. Devia ser maravilhoso, assombroso, devastador.
As criações de Satoshi Kon podem não ser fáceis de se entender, mas você as sente de uma maneira inegável, profunda, esmagadoramente contundente.
Em uma entrevista, Satoshi Kon diz que ele não precisava explicar muito a seu espectador, que ele confia que cada um dará sentido à história que vê. Ele diz:
“Se você olha para um sonho em geral, é muito difícil discernir o significado. No entanto, com o passar do tempo, pode haver certos significados em segundo plano. Filmes que você pode assistir uma vez e entender completamente — esse é o tipo de filme que eu realmente não gosto. Pode haver uma certa parte que você não entende muito bem, mas há uma parte que repousa no seu coração”.
Satoshi Kon nasceu em 12 de outubro de 1963 (em Kushiro), e faleceu em 24 de agosto de 2010 (em Tóquio), vítima de um câncer pancreático. Ele deixou uma carta de despedida.
Eu escrevi um artigo bem longo sobre ele (Ilusões matam), se você quiser conhecer mais sobre algumas da obras. Porém, aqui, para dar um gostinho, deixo um curta-metragem que ele fez: Ohayo.
Eu sinto, sinceramente, que meu entendimento se expandiu a cada obra dele que eu assisti. Por exemplo, depois de assistir a Millennium Actress, eu tive outro entendimento sobre as transições de cena na minha escrita literária. Foi como se todas as teorias que li sobre roteiro, narrativa, construção de personagens e universos, ganhassem um novo significado depois disso. É como se você fosse um alienígena, e alguém te explicasse nos mínimos detalhes o que é um sorvete — o gosto, a textura, os sabores, como é feito —, e, com tudo isso em mente, você finalmente consegue abocanhar um pedaço, sentir em sua boca.
Por isso quis apresentar Satoshi Kon a você. Quero, sinceramente, que você, minha amiga pessoa alienígena, sinta o que eu senti.
Acho que é isso que as boas obras fazem com a gente. E eu agradeço a Satoshi Kon por tudo o que me ensinou.
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