A ferocidade da arte
o caminho da alma do artista
Temos que lembrar da ferocidade da arte.
Da arte em si, mas, principalmente, em se viver a arte, defender sua arte, ou simplesmente praticar essa sua magia. A arte é magia, ela transmuta a atmosfera — quem nunca mudou de astral apenas por escutar uma música? Ela muda a sociedade — há os livros-máquina, engenhos de eterno refazimento de significados. Os azuis e amarelos de Van Gogh mudam nossa percepção.
Em 1947, Antonin Artaud publica um ensaio sobre Van Gogh, sobre como a sociedade o comprimiu até que ele perdesse suas forças e desistisse. Van Gogh — o suicidado pela sociedade. Se quiser ler, o ensaio está traduzido aqui e no original em francês (p. 242 e ss.).
Antonin Artaud (1896–1948) foi poeta, dramaturgo, ator, diretor de teatro. Eu não o conheço bem, mas irei procurar mais sobre ele. Pelo que vi, ele era intenso, assim como esse ensaio que criou.
Ler esse texto de Artaud é feroz. É descobrir que uma onça está me cercando. É um susto — mas sem fuga. É um susto que me ergue de mim mesma. É um enfrentamento com animosidade, é enfrentar a vida com intensidade. É o contrário da mornidão da rotina, do que é seguro e confortável. Esse texto não é confortável. É um chacoalhão, para se lembrar de que há uma luta, para se lembrar contra o quê se está lutando, contra o inimigo que mata a arte, que acusa Van Gogh de ser apenas “mais uma boca pra alimentar”, que o faz se sentir um inútil. É contra isso que estamos lutando, contra essas forças que conseguiram derrotar um artista como Van Gogh. E contra essas forças que também derrotam a mim, a você, a cada dia.
Derrotam a sensibilidade. … “era de uma sensibilidade terrível” — assim Artaud descreve Van Gogh.
O fardo de pintar sem saber por quê nem para quem. Pois não é para este mundo, nunca para esta Terra, que todos sempre tivemos manuseado, combatido, uivando com o horror faminto da miséria, do ódio, do escândalo e do asco, onde todos nós estamos envenenados, embora tudo isso nos enfeitice, até que ao fim nos suicidemos; pois acaso não somos, como o mísero Van Gogh, todos pobres suicidados pela sociedade? (Artaud, Van Gogh — o suicidado pela sociedade)
Leia o texto. Permita-se ficar incomodado. Concorde, não concorde. Crie seus próprios significados, e se fortaleça em suas lutas.
Para entender o texto, eu procurei vídeos na internet. Encontrei um vídeo da psicanálise, de um grupo de debates do professor João Pentagna.
Nesse vídeo, João Pentagna fala também sobre o livro-máquina (1h24min42s), o livro que muda a sociedade, e ainda sobre o autor e a sua obra:
“um livro que um(a) escritor(a) às vezes leva a vida inteira para escrever é uma vida maximamente comprimida, tornada mais precisa. É um dizer que atravessa tudo aquilo que a pessoa reuniu de melhor, de mais forte, de mais inteligente, de mais analítico sobre o mundo. Por isso Deleuze diz que os escritores e filósofos são médicos de si mesmos e do mundo, porque eles cartografam os signos do padecimento daquilo que eles sofrem, mas também do que as pessoas sofrem, daquilo que atravessa o campo social. A arte nesse sentido é uma medicina.” (1h28min55s)
A arte é medicina.
Sim, eu acredito nisso. E acredito que a arte é uma das forças que giram os mecanismos travados da sociedade, que criam novas visões de futuro, magia que vislumbra o que podemos ser de melhor, e nos desafia a mudar.
Diz Artaud, no ensaio, sobre Van Gogh:
Onde está, neste delírio, o lugar do eu humano? Van Gogh buscou seu espaço durante toda sua vida, com energia e determinação excepcionais.
A arte é o enfrentamento do medo com energia e determinação.
Medo, como Drummond define em seu poema, é a nossa própria existência, é como fomos domesticados a viver: “E fomos educados para o medo. / Cheiramos flores de medo./ Vestimos panos de medo./ De medo, vermelhos rios/ Vadeamos.”
E, contra o medo, o poeta ergue-se de si mesmo e proclama:
O poeta
Declina de toda responsabilidade
Na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme.(Drummond, “Nosso tempo”, livro A rosa do povo)
Mas quem nos educa para o medo?
Um dos medos, de todos nós, um dos medos que também afligiu Van Gogh foi o de ser um estorvo para seu irmão Théo, que o sustentava… quando Théo anuncia que terá um novo filho, Van Gogh sente a culpa a lhe pesar.
Sobrevêm dias em que o coração sente tão terrivelmente a falta de uma saída, que o surpreende, como uma pancada na cabeça, a ideia de que já não poderá mais ir adiante (Artaud, Van Gogh — o suicidado pela sociedade)
A culpa.
A culpa é um dos monstros.
Mas há outros.
Sobre os monstros, diz Artaud:
Além do mais, ninguém se suicida sozinho. Nunca ninguém esteve só ao nascer. Tampouco alguém está só ao morrer. Mas no caso de um suicídio, é necessário um exército de seres maléficos para que o corpo opte pelo ato terrível de dar fim à própria vida. (Van Gogh — o suicidado pela sociedade)
Um exército de seres maléficos, diz Artaud.
Seres maléficos que não valorizam o que é arte, que não valorizam o que não podem medir e quantificar e garantir com o selo do utilitarismo.
O prof. Ricardo Antunes, em sua crítica ao capitalismo, nos faz ver um pouco dos mecanismos criados para que a gente se sinta desqualificado, quando na verdade é o capitalismo que é incapaz de ofertar oportunidades a todos, então o capitalismo nos convence de que o erro está em nós, no nosso comportamento. Mais ou menos como uma criança no jardim de infância que aponta o dedo para o outro ao ser acusada de uma infração mínima qualquer.
Quem mais? Quem mais nos faz sentir medo?
Quem nos domestica com ameaças? Quem ou o quê? Quem nos coisifica? Quem nega oportunidades? Quem nos empareda? Quem nos oprime até o abandono? Quem define como a vida deve ser vivida, quem define essa verdade?
Artaud grita sua verdade para me despertar. E ele escreve cartas, cartas do Asilo em que esteve internado em Rodez. Artaud me diz, diz a você:
“não quero que ninguém ignore meus gritos de dor e quero que eles sejam ouvidos” (Artaud, Cartas de Rodez)
“o eletrochoque me desespera, apaga minha memória, entorpece meu pensamento e meu coração, faz de mim um ausente que se sabe ausente, e se vê durante semanas em busca de seu ser, como um morto ao lado de um vivo, que não é mais ele, que exige sua volta e no qual ele não pode mais entrar. Na última série, fiquei durante os meses de agosto e setembro na impossibilidade absoluta de trabalhar, de pensar, e de me sentir ser…” (carta de Artaud a seu psicanalista Dr. Ferdière)
Artaud não consegue voltar para si mesmo, escutar sua alma, é o roubo de sua alma, a negação do retorno a si mesmo. É isso o que o monstro com o qual lutamos nos faz. Esse monstro, que vou chamar de coisa, porque não é um ser, é um estado de não ser, esse monstro, essa coisa contra a qual lutamos quer nos destruir, quer destruir nosso caminho para nós mesmos.
E a Arte é medicina. Ela nos faz sentir ser. A Arte restaura o único caminho possível para o futuro: o caminho para dentro.
Não há nada que jamais tenha sido escrito, pintado, esculpido, modelado, construído, inventado, que não estivesse ligado à nossa pretensão de fugir ao Inferno (Artaud, Van Gogh — O suicidado pela sociedade).
Leiamos Artaud.
Vamos admirar as telas de Van Gogh.
E vamos sonhar juntos. Juntos, e ferozes, para construir um mundo sem medo. Para criar a magia da arte. Uma arte livre e libertária que refaça o caminho para a alma.

Outras indicações de Fontes:
Palestrante: Ana Kiffer
Data: 10/05/2018
3º Ciclo | Antonin Artaud, o exemplo anômalo
Ciclo de Conferências “Literatura e loucura”
Academia Brasileira de Letras
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