Exercício de alma
para que serve a poesia
Conheci hoje um poema de Cecília Meireles chamado “Neste longo exercício de alma”
Neste longo exercício de alma…
Ciência, amor, sabedoria,
– tudo jaz muito longe, sempre…
(Imensamente fora do nosso alcance!)
Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
vence-se o abismo:
– cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.
[Cecília Meireles, Neste longo exercício de alma, Poesia completa]
O poema foi publicado em 1955, e Cecília tinha 53 anos. Vamos supor que ela tenha escrito o poema ao redor dessa idade. Aos 50 anos, Cecília nos diz que estamos aqui em um longo exercício para nossa alma.
Ela fala sobre “longo exercício”… Veja que é sobre exercitar a alma sobre questões que estão ao longe… talvez fuja à nossa compreensão no momento, mas, ainda assim, vencemos o abismo.
Ela diz que somos um pequeno segredo em meio ao grande segredo que nos cerca.
Ela diz sobre o sol e a lua… penso nessas figuras mais do que a simbologia para a passagem dos dias, mas como a dualiade que temos aqui neste planetinha, noite e dia… mas, mesmo nessa dualidade há pontos de convergência, como a luz, a luz brilhante do sol e a luminosidade que a lua reflete…
Lembro ainda de quando escutei que “olhar para o céu noturno”, admirando, era uma crença espiritual pagã do passado… penso que sigo essa crença sem nome, perdida no tempo. Olhar para o céu noturno com admiração e, talvez, aquela sensação que não é bem melancolia mas sim uma saudade por algo que não se sabe o que é.
Acho que ler poesia me traz essa sensação, a de que existe algo bem maior e melhor do que eu conheço ou sinto. Ler poesia abre mais o entendimento das coisas intangíveis.
É preciso ler muita poesia para vencer o dia…
…e, como os que tocam um instrumento musical “de ouvido”, precisamos ler poesia para internalizar essa aprendizagem: para saber criar arte com a técnica que já temos aliada a esse “a mais” que é a sensibilidade que deixamos florescer pela intensa admiração do “imensamente fora do nosso alcance”.
.
.
E você? Qual poesia tem lido?



Linda poesia!
Lindo mesmo: Cecília. E a reflexão de que para interiorizar, seria como “tocar instrumento de ouvido”. Até porque, você Érica, escreve “pelo sentimento, que é o seu ouvido” apurado. Maravilhoso isso tudo. Obrigada por compartilhar 🙏🏼💝