Estrelas-cadentes
a criação artística como uma expedição ao mundo das ideias
No mundo das ideias, há a perfeição.
Aquela pintura que você imaginou hoje, enquanto queimava a torrada, vive ali, no mundo das ideias, flutuando em sua forma perfeita.
Você visita o mundo das ideias, sim, você visita. Esse é o motivo de tantas torradas queimadas. Você visita o mundo das ideias, admira a obra ali exposta e tenta voltar para este lado aqui com o máximo de informação que pode.
Mas é como o menino que carregava água na peneira, de Manoel de Barros:
“Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.”
Imaginem o quanto de água uma pessoa consegue levar numa peneira. Mesmo que a distância seja minúscula, a maioria se perde, e ficamos com algumas gotas.
O lugar onde existe todo o manancial de águas é o mundo das ideias descrito por Platão. Onde as ideias vivem em sua plenitude, e de onde nós buscamos a inspiração para nossas obras: “as essências perfeitas e universais de tudo o que existe no mundo sensível, o qual é uma cópia imperfeita e transitória dessas ideias”.
Essa é minha teoria sobre a criação e, não apenas a criação artística, mas sobre tudo: sobre como é a escova de dentes, um liquidificador, uma claraboia.
Acho que escutei sobre o Platão e o mundo das ideias nas muitas palestras da professora Lúcia Galvão (da Nova Acrópole) – tenho a leve impressão de também ter escutado dela essa metáfora do transporte de uma ideia de lá para cá. Mas ela usava a metáfora da areia. Trazer uma ideia de lá para cá seria como correr com areia nas mãos, vários e vários grãos escapam... o que torna impossível realizar aqui o que se sonhou no mundo das ideias.
Para mim, a mística da criação passa por essa metáfora. A de se levar água na peneira. A de se correr levando areia nas mãos.
Nós, criadores, visitamos o mundo das ideias, vislumbramos a perfeição, mas não conseguimos realizá-la aqui... o muito que fazemos é uma cópia imperfeita do que, do lado de lá, existe em plenitude de existência.
Essa metáfora, para mim, tem um equivalente pictórico na imagem encomendada por Flammarion para ilustrar seu livro sobre astronomia, de 1888. Não se sabe quem fez a ilustração, mas o artista deve ter seguido algumas recomendações de Flammarion.
A ilustração tem como legenda: “Um missionário da era medieval disse ter encontrado o ponto onde o céu e a terra se tocam”.

Vamos analisar a gravura:
A moldura da imagem também é parte dela. Repare na moldura. Há uma imagem entre pilares. Há a alusão a “portal”, passagem entre mundos. Acima, dragões, talvez como guardiões.
O homem para ver o outro lado está ajoelhado, representando a humildade. Tem um cajado. Ele está chocado por imagens que não compreende. A paisagem do outro lado é totalmente diferente. Não há dualidade. Não há dia e noite, sol e lua. As leis do universo, ali, são diferentes. A roda no canto superior esquerdo, roda dentro da roda, é mencionada por Ezequiel na Bíblia, sobre seres de quatro faces que se moviam em qualquer direção.
O cajado na mão do homem, ajoelhado, significa polaridade. Conexão entre os mundos, é o condutor, a antena entre mundos. O cajado está no chão, o que também poderia simbolizar que no outro mundo não temos no que nos apoiar, que o conhecimento que trazemos daqui não é suficiente ou não é útil ali.
Há uma árvore no centro. A árvore pode simbolizar os chacras, ou a árvore da vida, ou da mitologia nórdica a Yggdrasil, várias dimensões de existência. A simbologia da árvore da vida existe em várias culturas.
Para mim, essa gravura simboliza essa viagem mística da criação. A arte sendo esse ponto onde “o céu e a terra se tocam”. Os criadores-artistas como o condutor, a antena entre esses dois mundos. (por isso escolhi essa imagem como o ícone do perfil do “Mística da criação”).
Somos os andarilhos que vão a outro plano e trazem dali conhecimento para cá, algo que se vê e quase não se entende... para mim, é como o processo da escrita, é também ir a outro plano, buscar ali as ideias e imagens, mas não conseguir representá-las aqui em sua perfeição. É como trazer de outro plano uma concepção de bondade e beleza, que são automaticamente diminuídas quando se cruza a fronteira.
Como criadores, não temos muito mais que podemos fazer.
Sabemos que somos nós as criaturas que devem carregar de lá para cá esses conceitos, esses sonhos, e tentar transmiti-los em nossa melhor forma.
O combustível que gastamos nesse transporte é o tempo, que é o tecido da vida. É um preço alto, mas iríamos gastá-lo de todo jeito, não? Melhor que seja nessa tarefa do que sentados no sofá assistindo pela décima vez o filme da Amélie Poulain. (amo esse filme)
Tem uma palavra de que gosto bastante: centelha. Toda vez que a digo, lembro de estrelas-cadentes. Talvez pelo significado ser: faísca, brilho muito rápido.
É isso que fazemos na criação: caçamos estrelas-cadentes. Tiramos uma fotografia registrando essa centelha. Uma missão tão impossível quanto. Mas tentamos ontem, hoje e sabemos que iremos também a essa aventura amanhã.
Como o menino da peneira, ou o que corre com a areia entre as mãos, nós caçamos estrelas-cadentes, com nossas redinhas tecidas com a fábrica do tempo, e, quando capturamos uma do lado de lá, corremos para cá, sabendo que tudo vai se apagar em um segundo. Trazê-la para cá é um gesto de fé — fé na beleza, na verdade e na capacidade humana de tocar o que está além. Se não podemos trazer o todo, que ao menos possamos trazer uma centelha do que vimos do outro lado...
...E que essa centelha ilumine outros caminhos, outras criações, outras vidas.




É isso! E será que não somos nós mesmos que criamos, coletivamente, este mundo das ideias? Como uma espécie de repositório infinito em que todos nós contribuímos com fragmentos, pequenos pedaços de pensamento.
Curti!!! Me sinto assim quando escrevo e crio sonoridades - catador de estrelas cadentes. Adorei a metáfora! E
o quadro também...