Chama trina
A arte do futuro, hoje
Conheci Hilma af Klint em abril de 2025. Faz pouco mais de um ano.
Naquela época, escutei a palestra da professora Luciana Pinheiro.
Vira e mexe, lembro de Hilma. Mas hoje, em especial, porque vi no instagram que terá mais uma exposição de Hilma, dessa vez no Grand Palais de Paris.

Tudo muito precioso.
Hilma é uma preciosidade. Uma maravilha. Uma flor do futuro, e o futuro é hoje. Hilma é hoje.
Sempre me surpreende o quanto o mundo não enxerga as mulheres de sua época... com poucas exceções, o mundo parece privilegiar as que já faleceram, talvez para disfarçar sua falta de interesse por meio da moldura dourada da reparação histórica? Não sei. Mas tenho que reconhecer que isso está mudando, e tenho fé de que as pessoas do futuro não mais obliterarão as mulheres de seu tempo.
Futuro. Era disso que Hilma falava. As obras dela, de profundo caráter místico e abstrato, estavam claramente muito à frente do pensamento de sua época; e, por isso, ela declarou que pintaria para as pessoas do futuro: suas obras deveriam ficar guardadas até, pelo menos, 20 anos depois da morte dela, para, só então, serem reveladas.
Engraçado que sua arte foi antecessora a Kandinsky, mas o mundo não teve problema algum em reconhecer Kandinsky ainda em vida e elevá-lo à condição de pioneiro da arte abstrata. Mas foi porque Hilma não se esforçou para expor a própria obra, não foi a público... Sempre tem alguém que faz esse tipo de comentário, né? Para esse tipo de gente, eu apenas desejo que reencarne em 1800 na pele de uma mulher, acho que não tem outro argumento possível. — E Hilma mostrou, sim, essas obras para um pequeno grupo de pessoas, e não foi bem recebida, o que reforçou sua decisão para guardar essa faceta de sua arte para o futuro.
Enfim, Hilma e o futuro.
Eu queria falar apenas sobre a arte mística de Hilma. Mas minha sede sempre aparece, né? Perdoe-me.
Sobre Hilma. Essa ideologia dela foi influenciada pelas ideias de Steiner, filósofo e esoterista austríaco. Em seus diários, Hilma disse que sua arte era uma moldura para o conteúdo espiritual que deixava como pesquisa.
Na palestra da profa. Luciana, foi dito que Hilma sempre pintava a chama trina.
Chama trina.
Eis o que a professora disse:
“A chama trina, ela vem de uma escola antiga, mas muito antiga, de nenhuma doutrina, necessariamente, mas que traz formas.
Segundo mestres egípcios, todos nós temos uma chama trina no nosso coração, que os clarividentes conseguem ver, e a chama trina ela tem o rosa do amor, o dourado da sabedoria e o azul do poder.
Amor, poder e sabedoria formam uma tríade onde o ser humano deveria desenvolver as três chamas igualmente, em equilíbrio, porque :
– poder sem amor vira tirania,
– sabedoria sem amor vira conhecimento que não necessariamente é para o bem, pode ser manipulado também.
– Só o amor sábio é poderoso”
.
Isso me lembrou da epígrafe, um ditado popular, que coloquei em meu livro As chaves do invisível:
“Existem três caminhos: o certo, o errado e o do coração.
O caminho certo nem sempre é o certo.
O caminho errado nem sempre é o errado.
O caminho do coração é sempre o caminho do coração.”
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O coração e sua chama.
O coração e seu chamado.
Hilma viu tão além de seu tempo. Sua arte abriu para ela portais preciosos, mostrou para ela que sua arte seria reconhecida no futuro. Não... Acho que sua arte mostrou ainda mais para ela: mostrou que as pessoas do futuro seriam melhores, seriam mais acolhedoras, e estariam abertas a receber a sua arte como realmente era. Sua arte foi o portal para que ela percebesse que as pessoas, um dia, a veriam, veriam Hilma e a amariam exatamente como ela era.
Ou... ou seria por Hilma não ter desistido e ter continuado a pintar durante sua vida inteira, mesmo passando por provações, e guardado sua arte como um tesouro, será que foi por isso que o futuro se tornou um lugar melhor? Porque uma mulher não desistiu de seu sonho e insistiu, mesmo sem palco, mesmo sem plateia?
Isso me fez pensar agora, por um segundo, que o que fazemos pode mudar o mundo e pode mudar as pessoas para melhor mesmo que não sejamos vistas e vistos. Mais ou menos como uma planta faz sua fotossíntese.
Fico feliz que sejamos as pessoas do futuro de Hilma. As pessoas que a recebem, finalmente, de braços abertos e com um sorriso.
E espero que continuemos todos nós a fazer deste um mundo melhor, mesmo que em trabalho silencioso e invisível.
Continuemos seguindo o caminho do coração, iluminados pela chama trina.
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“O que é mostrado para mim é mostrado dentro de mim e, para deixar isso claro, meus próprios pensamentos geram o que descrevi. Por isso, tentei mostrar que o que eu vou investigar passa pelo ponto central do meu ser, que é o coração. Com o coração, pego a insinuação que recebo e depois a produzo como imagens mentais. Meus estudos são conduzidos independentemente dessas imagens mentais, mas, para realizá-las, eu tenho que convertê-las através de meus pensamentos” Hilma af Klint (54 anos), Cadernos, 1918.



Ela era incrível 🔮