1000 tsurus e Clarice Lispector
dobrando escrita e desejo
Escuto Clarice Lispector narrando meu dia. As nuvens, as andorinhas, as pedras do quintal. Tudo na voz de Clarice. Até mesmo essas pausas. Que não são minhas, mas dela. Isso me acontece quando leio Clarice Lispector – estou lendo A descoberta do mundo. Isso me acontece, eu disse, e quis dizer que o que acontece é eu passar a escutar a voz dela em minha cabeça.
1000 tsurus. Parece um assunto totalmente diverso. E é. É que calhou de, quase ao mesmo tempo, eu ler Clarice e ter visto que Natti (https://substack.com/@mardanatti) conseguiu finalmente terminar os 1000 tsurus. 1000 tsurus dobrados em papel de seda. Várias cores. Um arco-íris de determinação.
Eu perguntei a Natti se ela escreveu algo sobre a experiência, e ela me disse que ia escrever. Me avise, eu pedi.
E daí pensei... será que Clarice escreveu algo sobre tsurus?
Acabo de ler um dos relatos de Clarice, um em que Cristina veio lhe entrevistar. E Clarice diz várias coisas, uma delas é que não trocaria ser escritor pela maternidade – se tivesse que escolher, seria a maternidade a vencedora –, ah, e ela diz que é “ser escritor”, e não “escritora”, pois há em quem escreve os dois sexos. Adiante, Cristina pergunta se a literatura compensa, ao que Clarice responde que não, que “Escrever é um dos modos de fracassar”. (“A entrevista alegre”, 1968)
E pensei nos tsurus de novo.
Conta a lenda que fazer 1000 origamis de tsurus dá ao dobrador o direito a um desejo... mais ou menos como ver uma estrela-cadente. Mas com a diferença temporal e da força de vontade... a estrela-cadente é um evento de menos de 1 segundo, e totalmente alheia à nossa vontade... já os origamis exigem dedicação e tempo, muito tempo... e determinação… muita determinação.
Clarice escreveu bastente sobre desejo... mas ela não me parecia uma mulher muito paciente... acompanhar, por essas suas crônicas, seu dia a dia, dava um vislumbre disso... (aliás, eu não sabia que Clarice tinha uma diarista e uma cozinheira... a carga de desgaste me pareceu diminuir drasticamente, e escrever ficção, mesmo tendo duas crianças pequenas, não pareceu tão impossível assim...) (mas talvez seja impossível escrever como ela escrevia...) (desculpe-me a inveja) (dupla inveja) (muita inveja, afe)
... e parece que o fio se perdeu... volte... volte...
O que 1000 tsurus fariam a Clarice Lispector?
Acho que ela não chegaria a 10.
Acho que ela dobraria 1. Apenas 1. E talvez ficasse olhando para ele por alguns dias. Uma semana? Como da vez em que viu um pombo dentro do taxi e depois dentro de casa... como era mesmo aquela história? Era sobre o estranhamento, sobre a coincidência, sobre o espanto.
Sim, bastaria 1 tsuru para assombrar Clarice e preencher seu (e nosso) universo onírico por toda uma vida.
O que eu desejaria? Digo, depois de eu dobrar 1000 tsurus? Seria ainda sobre pedir algo ou sobre aprender algo no processo?
Clarice não dobrou tsurus... mas talvez... ela tenha escrito como quem dobra 1000 tsurus...
Talvez eu escreva como quem dobra 1000 tsurus...
Talvez, todos nós... todas nós…
Paciência... – a voz de Clarice me diz no canto de meu cérebro.
Paciência... – eu desdenho um pouco.
E nós duas rimos. Ela, com o cigarro entre os dedos, olhos inquisidores. Eu, procurando no google o modelo de como dobrar um tsuru.
Ser escritor... fracassar... pombos... tsurus... desejo...
Paciência.
Paciência.
Querida pessoa, espero que você tenha encontrado inspiração aqui! Para escrever, dobrar tsurus, começar uma revolução. Inspiração! Avante!
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Querida pessoa, não sei quando este artigo vai encontrar você, mas eu soube hoje (3 de maio de 2026) que a Natti precisa de ajuda. Então, se você quiser ver se ela ainda precisa, seria maravilhoso, não? Veja aqui.


